Personalidades - Lawrence Olivier (2)

Fria manhã em Nova York. Laurence está parado na esquina da rua
47 com a Sexta Avenida. Na manga direita de seu agasalho xadrez
oculta, cuidadosamente, uma lâmina de aço.
Olha dentro dos olhos de um homem alto e, num rápido movimento,
corta-lhe a garganta. O homem arqueja, cambaleia até uma árvore e
cai.
Próximo, um esguicho vermelho sai de um fino tubo e cai sobre o corpo da vítima. Ao lado, dois homens esperam, com baldes de água, para lavarem a calçada ensangüentada. Alto, através de um megafone, uma voz estridente pede à massa que circule. Ninguém se mexe.
Larry, como excentricamente, prefere ser chamado, esquecera-se da multidão à sua volta. E, como não bastasse, centenas de pessoas desembarcavam do metrô, próximo ao local, e dificultavam ainda mais as coisas.
Dois guardas, e somente dois, pois foi o que sobrara ao prefeito Beame, que havia colocado todo o resto do pessoal na rua. Isto facilitava um pouco as coisas.
Larry é um criminoso de guerra nazista. Está nos Estados
Unidos para desenterrar um punhado de diamantes. Já torturara o
estudante Dustin; seguira a refugiada Marth Keller; perseguira o
agente da Cia Roy Schelder; liquidara um judeu que o havia
reconhecido... É apavorante, um mau caráter de
ponta-à-ponta.
O filme é Marathon Man*, dirigido por John Schlesinger, roteiro e autoria de William Gold. Sir Laurence é Laurence Olivier, um dos maiores atores ingleses. Dustin, é Dustin Hoffman, na época um jovem. As locações foram o Mercado de Peixes de Fulton, a Ponte do Brooklyn, o Zôo do Central Park, o Centro de Diamantes e a Universidade de Colúmbia.
Aos 66 anos, saía de um câncer de próstata e tinha problemas no lado direito, mão e perna. A maquiagem, o alto da cabeça raspada e o branqueamento do restante do cabelo, acentuavam-lhe o semblante enfraquecido. “Trocaram o meu rico grisalho por esse branco prematuro”, disse.
Falando sobre seu papel, explicou porque aceitou o convite: “para testar até onde posso trabalhar”. E explicou: “O papel não é homérico. Eu não poderia subir uma escada aos saltos, e disse a eles que se tinham de me filmar levantando-me da cadeira, eu levaria um longo tempo nisso, de modo que teriam de fazer duas tomadas e cortar o meio da ação. No entanto, posso caminhar normalmente.”
Na época, o ator lia “Bring on the Emppty Horses”, de Davi Niven, seu amigo. Entre a filmagem de uma cena e outra, o ator freqüentava um pequeno café na Rua 47. À noite, desfrutava a vida noturna nova-iorquina, assistia ao “Chorus Line” e jantava em grandes restaurantes. Hospedado em uma suíte no “Drake Hotel”, apreciava a grande sacada, que dava para a Rua 56 e a plantas, segundo ele, adoráveis. “Disse que pensou em mandar imprimir cartões dizendo: ‘Em casa para o chá e o tênis’”.
Em 1976, apesar de sua frágil saúde, trabalhava, em tempo integral, interpretando, ensaiando e dirigindo para o “National Theater de Londres”. E, segundo ele próprio: “Ocasionalmente, tiro alguns dias para fazer um papel em algum filme. Todos nós precisamos de um dinheirinho extra”.
O grande cavalheiro inglês, o grande ator, não era soberbo, mas extremamente ciente do que representava para seu povo. Nos Estados Unidos, fez comerciais para a TV a convite da Polaroid. E disse, à época: “Nunca me preocupei em fazer anúncios nos Estados Unidos. Na Inglaterra, ficariam chocados. Criaram uma imagem ridícula de mim. Tive de dizer à Polaroid: ‘Sinto muito, mas não podem mostrar esse anúncio na minha terra”.
Foi convidado, pela mesma Polaroid, a fazer comerciais em três línguas. E explicando porque aceitara o convite: “Eu não sou um poliglota, mas quando levei a companhia de teatro com ‘Titus Andronicus’ para trás da ‘Cortina de Ferro’, em Varsóvia e Zagreb, aprendi um bocado de discursinhos de bolso para dizer ao público em cada língua. Eu pensava que podia falar francês, alemão e italiano,mas, depois que fiz os comerciais, me chamaram de volta. Não para alterarem o diálogo, mas a mim. Disseram que eu falava italiano como sotaque russo. Eu perguntei se isso tinha importância e eles disseram que não. Apenas na Itália, falar com sotaque russo é motivo de gozação, e por isso não poderiam vender câmaras com todo mundo rindo de mim. Obrigaram-me a refazer o filme em alemão porque eu o falava com sotaque russo e isso era motivo de gozação na Alemanha. Aí eu disse: meu francês está bom, pois, afinal, eu tenho um nome francês. Disseram que não, que eu também o falava com sotaque russo. ‘E suponho que isso seja motivo de gozação também.’ Eles responderam: ‘Não, não é nada engraçado’.”
Mas quem foi Sir Lawrence Olivier? O cavalheiro inglês foi o mais destacado ator de sua época, participou de 121 peças teatrais e fez 165 filmes, dos quais 18 foram realizados após “Marathon Man”. Suas criações, de “Heathcliff”, em “O Morro dos Ventos Uivantes”; e Henrique V, tornaram-no admirado em todo o mundo. Mas foi no teatro, onde interpretou todo tipo de papel, que sua realização foi completa. Um intérprete dos personagens Shakespearianos ainda não superado. Inclusive, iniciou sua carreira, aos 10 anos, com o personagem Júlio César, de Shakespeare, além de representar, produzir e dirigir as obras "Henrique V" (1945), "Hamlet" (1948)), "Ricardo III" (1956) e "Otelo" (1965). Além disso, Lawrence também escreveu dois livros: “Confissões de um ator” e “Ser ator”, onde descreve sua biografia como ator, da infância ao estrelato.
Foi um homem e um ator premiado. Agraciado cavalheiro, em 1947, recebeu seu primeiro Oscar em 1946, por sua atuação e direção em "Henrique V". Em 1948, sua produção de "Hamlet" levou quatro Oscars: filme, ator principal, para o próprio Olivier, direção de arte e figurino. Em 1970, a rainha Elizabeth II lhe outorgou o título de Lorde, com direito a frequentar o Parlamento Britânico. Em 1978, recebeu um Oscar especial pelo conjunto de sua obra e sua contribuição à arte cinematográfica.
A mulher com a qual compôs o melhor par foi Vivien Leigh. Conheceu-a em 1937, em uma montagem de "Hamlet" e com ela se casou, em 1940, e com ela ficaria casado até a década de 60.
Larry morreu dormindo. Ao lado de sua terceira mulher, a atriz Joan Plowright, com quem teve três filhos, o maior ator Shakespeariano que o mundo conheceu, morreu aos 82 anos, de câncer no estômago. Laurence também escreveu dois livros:Confissões de um ator e Ser Atoronde descreve sua biografia como ator,desde a infância até o extremo sucesso que alcançou.
Informações:
REVISTA FATOSeFOTOS GENTE. Laurence Olivier, depois de quase ter morrido de câncer, volta a filmar na pele de um criminoso de guerra nazista. Brasília, a.XV, n.750, 5/1/1976, 21-22p.
WIKIPÉDIA
Nota:
Marathon Man (Maratona da Morte). O filme conta a história do último médico da SS responsável pelo campo de concentração de Auschwitz, Christian Szell, que vive refugiado no Paraguai e que tenta contrabandear uma importante quantidade diamantes para fora dos EUA, com o apoio de uma organização ultra-secreta chamada "The Division". Seu caminho entrecruza-se com o de Thomas "Babe" Levy, estudante universitário de História, praticante de maratona, atormentado pelo suicídio do pai, devido a perseguições do Marcartismo. Ao tomar conhecimento de que os diamantes estão em poder de Levy, Szell persegue o jovem para os recuperar, o que leva Levy à beira da loucura.
Com o filme, Lawrence foi indicado ao Oscar/77, na
categoria de melhor ator coadjuvante e venceu na categoria de
melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro/77.
Vejam as fotos (cliquem no link Photos nas abas)
Pedaços da História
Personalidades: Isabelita Perón (1)
Argentina. Janeiro,
1976. A
rádio Belgrano, de Buenos Aires, transmite um ultimato dos
militares rebeldes no sentido de que a presidenta da Argentina
deve renunciar.
Maria Estela Martinez de Perón, mais conhecida como Isabelita, surpreende: “Somente morta deixarei a ‘Casa Rosada’”.
Os aviões, em vôos rasantes, atacam o Palácio do Governo e a “Plaza de Mayo”. Descem em picadas, aterrorizam os velhinhos que alimentam os pombos, pressionam a presidenta.
Isabelita repete as palavras que Péron havia dito vinte anos antes: “O Peronismo quando atacado não negocia: contra-ataca”.
Isabelita, a ex-bailariana do Cabaré Happykabd (Panamá), viúva e sucessora de Perón, indiferente ao ruído ensurdecedor dos jatos, andando pelos corredores do Palácio, reafirma: “Nem licença, nem renúncia!”.
A mulher de 1,55m era apresentada por Perón com as seguintes palavras: “Aqui está Maria Estela, chiquita, pero fuerte!*”
Do outro lado de Buenos Aires, os oficiais rebeldes são surpreendidos pela resistência de Isabelita. Os militares argentinos nunca se alinharam ao Peronismo, mas o Exército acredita que a crise deve ser resolvida “sem quebra da Ordem Constitucional”.
Preciso aconselhar os amotinados a se renderem. Faltam apenas 10 meses para as eleições. A inflação argentina está superior a 300%a.a. O terrorismo, contabiliza 700 vítimas.
Aviões Camberra, Mirage e Douglas, bombardeiam as instalações rebeldes na base aérea de Moro. Os Mentores, que, instantes antes, bombardeavam a “Plaza de Mayo” e a “Casa Rosada” são destruídos nos hangares.
“Morreremos em nossas posições”, respondem os rebeldes. No interior da base aérea, oficiais e praças instalam canhões de grosso calibre para repelir o bombardeio, mas é grande a desproporção de forças.
Panfletos são lançados sobre Moro, esclarecendo que quase a totalidade da Força Aérea se opunha ao movimento do grupo ultradireitista.
“Resistiremos. E, caso persistam os ataques à nossa base responderemos atacando a ‘Casa Rosada’”, disse o porta-voz de Moron.
Civis são evacuados do Palácio, armamento antiaéreo é instalado no centro de Buenos Aires. Isabelita, ladeada pelo ministro da Defesa e pelo vice-presidente do Partido Judicialista declara: “Não abandonarei o Palácio e não admito nenhuma negociação com os rebeldes”.
A palavra de ordem do CGT é para que os sindicatos suspendam o trabalho em solidariedade à presidenta. Imediatamente os trabalhadores iniciam a paralisação. Os “trens do subterrâneo” dirigem-se aos pátios. Transportes de superfície (ônibus, taxis e trens), desaparecem das ruas. Trabalhadores das fábricas cruzam os braços.
Mas o grande enigma permanece: em que medida os líderes militares, que resguardaram a ordem constitucional, terão força para pressionar o governo peronista a realizar as transformações exigidas?; como afastar Isabelita, sem quebrar a ordem constitucional?
Também aos militares fala Isabelita: “Só morta deixarei a ‘Casa Rosada’!”
* Aqui está Maria Estela, pequena, porém forte!
Fonte: REVISTA FATOSeFOTOS GENTE. Impassível ante os vôos rasantes dos jatos rebeldes, Isabelita diz:só morta deixarei a Casa Rosada. Brasília, a.XV, n.750, 5/1/1976, 4-5p.