Sun 22nd

FAMINTO

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm

FAMINTO

Faz favor,
Avisa a todos:
Estou aqui
Perdido e com fome
Quero provar tudo o que tenho direito
Só vou comer e ir embora

Faz favor,
Avisa aqueles cuja coragem falta e também a vergonha:
Querem provar tudo o que é meu!
Por dinheiro, comerão e irão embora.
Na desculpa cínica da ignorância
Uns se escondem atrás de outros
E se é um, mais um apenas
Um,
Em meio à multidão de desavisados
Há que se ter coragem e bastante cara dura
Me comerão e irão embora...
Sun 22nd

Vanila Song (Um beijo)

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm
VANILLA SONG (Um beijo)

Um beijo
O ponto de partida
O ponto de chegada
Com cheiro de vanilla
Lábios língua saliva
O primeiro beijo de morte
O último sopro de vida

Um gole de saquê
De Salto Alto
Do Almodovar
No seu quarto
Na sala de TV
Em outro planeta
Que vontade de ficar aqui
Pra sempre
Na sala de TV
Com cheiro de vanilla
Fazer um filho em você

O mundo pára
Por alguns segundos
Que contêm a eternidade
Não existe dor nem saudade
Nem barreiras temporais
Apenas o silêncio do vazio
Êxtase ensurdecedor
Que salva, que mata, que cria
Eu mais você
Saliva sua língua e a minha
O ponto de partida
O ponto de chegada
Com cheiro e gosto de baunilha
Eu mais você, ankh, nossa filha
Na sala de TV...
O último beijo de morte
O primeiro sopro de vida
Sun 22nd

Se o Passado Vier a Você

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm
Pedi que viesse ao meu encontro. Desde quando sua verdadeira face desvendei. Vi assinados seus muitos nomes: Inveja, Cobra, Dissimulada, Corrupta.
Nunca mais me enganei. Iguais a você reconheço de longe, hoje.
Confesso: demorou para que desocupasse grande parte dos meus pensamentos, foi um processo longo e árduo.
Mas com o tempo, e sem o menor esforço, você foi se recolhendo, fazendo juz à proporção
da sua insignificância
até que, finalmente, passou a ocupar o espaço merecido - nenhum - na mente, quiçá coração!
Engraçado como você caiu no limbo do esquecimento. Lá ficaria. Não fosse hoje.
Por tanto tempo, pedi que viesse ao meu encontro. Sozinha. Covarde, não veio.
Usando sua muleta, veio hoje.
Por alguma razão, dessas que a própria não explica, meus olhos a atravessaram e não a vi. Infelizmente! Não pense que a ignoraria.
Não perderia a oportunidade de presenteá-la com as palavras que tenho guardadas.
Vindo de você, não acredito em coragem.
Pra fugir das mentiras, inventou outras novas
e escondeu-se sob um cobertor estampado com a realidade que queria.
Não acredito na sua coragem. Tanto que hoje não foi capaz de ir até o fim.
NÃO ACREDITO NA SUA CORAGEM. MAS ENTENDO SEUS MOTIVOS.
QUER QUE EU A LIBERTE DAS CORRENTES QUE ARRASTA.
NÃO CABE A MIM.
Sun 22nd

Não é Meu

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm
Outro rosto. Um rosto que não é meu, talvez de um monstro. Um aglomerado de massa molenga. Sombras. Manchas escuras e salpicadas na altura da testa, boca e buço. Leve penugem intercalada entre os poros do queixo. Olhos que não são meus – são os dele – quase os de um peixe recém fisgado, esbugalhados, inchados, etílicos. Olhos que desejavam estar sob a terra ou presos noutra dimensão, mas incapazes de silenciarem debaixo do peso das lágrimas. São a expressão no silêncio, o falsete não ensaiado, a prostração da boca, o arregalar do palato. O contraste do branco lutando com o preto dilatado da pupila.
Trafego entre dois pólos extremos. O estado ilusório alcanço e me escapa o equilíbrio. Desejo inspiração na rotina. O quanto a felicidade alheia é capaz de incomodar e o quanto esse incômodo revela o alcance da própria mediocridade?
Sun 22nd

Morfina

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

MORFINA

Que adianta lutar contra algo que é inevitável?
Mais fácil fugir e deixar como está
Calar para não ter que escutar
Lamúrias
que não sejam as minhas próprias
Locar um filme
Uma realidade diferente
Distrair a mente
Me boicotar

Na veia...

Inteligência é burrice
Amor, desamor
Saúde é doença
Sanidade, loucura

Na veia...

E como fica feio, muito feio
E cômodo, plácido, desesperador e estático
Meu abismo, meu escuro, meu casulo, meu amor!

Ouço sons e vozes, tique-taque, sinos
Nervoso tique-nervoso
Me como, me espremo
Unha, cabelo encravado, Amor
Cravado
No peito!
Na veia! [que transborda amor]

Na veia! [Morfina, por favor!]
Sat 21st

A Música que Seria a Deles (Partes em html)

Published by: Adda Braga on Saturday 21st February 2009 11:02am

A música que seria a deles (Partes em html)

Debruçada nos cotovelos
sentada frente à mesa redonda
de ônix
Estava louca, muito louca
Mas só durou o começo

Veio a concentração
que trouxe a tela
de códigos, símbolos e cripto-linguagem
O coração não fala em html...

Ansiosa, tenta ouvir a música
que imagina que seria a deles,
caso tivessem se conhecido,
enquanto escreve estas palavras -
outros códigos, mais símbolos -;
o código da língua,
que também não fala em html

... A língua
quando desliza
desvenda a linguagem do corpo,
decifra se há amor...
Não tenho nada a confessar.
Você não me conhece.
Ainda...

Esqueceu-se do estômago oco,
atendeu ao telefone diversas vezes.
Nada importante
do outro lado da linha
Com um dos ouvidos,
automaticamente, respondia.
Com o outro
precisava escutar
seguidas e seguidas vezes,
a música que seria a deles,
caso um dia fossem se encontrar.
Para manter-se escrevendo
a inspiração brotada
das partes dele

Acendeu outro cigarro
E perdeu-se na visão
das imagens de si própria
num labirinto escuro, turvo, esfumaçado,
cheio de rostos desconhecidos
que não eram o dele
ou seriam?
Procurando...

Procurando partes dele.
Não se conheciam.
Procurando pelas partes
que podiam ser as dele.
Wed 11th

Pele

Published by: Adda Braga on Wednesday 11th February 2009 03:02am

 
Eu queria abraçar ela
beijar ela
em meio a fumaça que se ergue densa,
entre um sorvo e outro meu
Confesso sentado no chão
sem vergonha com verdade.

Despido de tudo,
do ego,
Digo com a boca que amarga
as palavras
E o olho roxo
que um dia
foram beijados por sua beleza

Despido,
o corpo lateja,
As palavras passeiam na pele
entre curvas que levam ao nome seu.
Queria abraçar ela
Queria beijar ela
Hoje não sou eu

Enlouqueço
Viro de ponta-cabeça
Antes que me achem
Hoje não sou mais ninguém
Sou mais eu.

Wed 11th

O Banho

Published by: Adda Braga on Wednesday 11th February 2009 02:02am
Ainda saboreava
O gosto acre rascante
Grudado à glote e às gengivas

Quando, após perder o chão sob os pés,
pisou os ladrilhos gélidos
Do banheiro

A imagem perpassou o espelho
Em cima da pia, o maço de cigarros,
O celular - em meio aos vidros de perfume -
E a lâmina de barbear;
Tudo empesteado com o cheiro do pai.
Coisas que tornariam-se reminiscências.

Dentro do box, avidamente, deslizou as portas de blindex,
Criando para si, uma clausura,
Um esconderijo, uma pequena fortaleza
De paredes vítreas e cristalinas.

Demorou-se para girar a torneira.
E levantou a cabeça, lançando o olhar
pro chuveiro
Não queria saber de surpresas.

Viu a gota primeira ameaçar
Destacando-se do montante de gotículas
Que disputavam entre si.
Certeira, cravou-lhe o olho.

Sob o chuveiro
Pensamentos indesejáveis invadiam
A mente incansável, autoflageladora.
Evocou os números
E pôs-se a contar
Não, porque doía-lhe a censura
(Onde estavam seus sentimentos?)
Mas, para espantar as imagens que se ofereciam -
O ato antes do banho -
Cuja alma exaurira

Imagens incômodas,
Emaranhadas
Tortuosas, não.
Nada sentia (onde estavam seus sentimentos?)
Desejava uma mente limpa
Como a água
Que saía do chuveiro
E descia pro ralo
Levando embora a sujeira.

Quanto tempo mais, permaneceria ali,
Indiferente
À vulnerabilidade da nuca, entregue ao jorro d'água?
Os sentimentos anestesiados opunham-se ao frenesi sensorial
Todos os poros dilatados
Os pêlos se arrepiavam
No roçar do sabonete.

Nada fazia sentido
O tempo corria numa velocidade diferente
Não se reconhecia
Prisioneira dum corpo de formas perfeitas
A água que o ralo sorvia
Era rósea, quase vermelha.

Veio a vertigem
E junto a memória
Concedera a boca
Para um último capricho
Engolindo o que as deusas
Do Olimpo
apelidaram de néctar dos deuses

Fora mais fácil
Que pensara
Enquanto o bebia
Durante o gozo cegante
Levantou o travesseiro que escondia
A paciente adaga

Dos dois objetos fálicos apoderara-se, então:
O quente, ainda pulsante, na boca
E o frígido, que encorajava direto na tráqueia,
Ágil, seco e degolante,
Golpe da mão.

Pôde gozar em vermelho-vivo viscoso
A espera dos anos
Consumara-se o momento da vingança
Pelos abusos a fio.
Era a primeira vez
Que gozava.

No banho
Não se reconhecia
Os pés cambaleantes sobre a água rósea,
Escorrida do corpo dela,
Não eram seus
Nem as imagens turvas
Que tentavam sobrepor-se aos números
Evocados por ela
Nem o tempo pertencia
À epoca nenhuma
Perdera a contagem

Inspirava fundo
Pois o ar lhe escapava
E a vertigem
Até os tímpanos invadia
Abafando-os completamente.
Um único pensamento
Brotou claro, coerente
E a fez sentir bem.
O mesmo que a perseguira na infância
Quando sufocava por entre as lágrimas
Espremidas
Pelo peso da barriga do pai:
"Sou uma menina muito má, má, má..."

(...)

Nada de mea culpa
Sentiu-se bem.
Mon 9th

Adrenalina

Published by: Adda Braga on Monday 9th February 2009 12:02pm
Gosto de lhe sentir por inteiro
quando já me invadiu por completo
sem antes se anunciar
talvez seu poder consista exatamente nisso
num chegar despercebido e não premeditado.
O prazer de ser sua morada, quando você está no auge
é que me faz querer dançar
e então eu danço, danço que me desfaço
e meus pedaços, todos já desfacelados, em mil outros eus,
são eles, agora, que estão no apogeu
em busca de outras moradas...
Relutar não adianta.

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