Sun 22nd

Não é Meu

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm
Outro rosto. Um rosto que não é meu, talvez de um monstro. Um aglomerado de massa molenga. Sombras. Manchas escuras e salpicadas na altura da testa, boca e buço. Leve penugem intercalada entre os poros do queixo. Olhos que não são meus – são os dele – quase os de um peixe recém fisgado, esbugalhados, inchados, etílicos. Olhos que desejavam estar sob a terra ou presos noutra dimensão, mas incapazes de silenciarem debaixo do peso das lágrimas. São a expressão no silêncio, o falsete não ensaiado, a prostração da boca, o arregalar do palato. O contraste do branco lutando com o preto dilatado da pupila.
Trafego entre dois pólos extremos. O estado ilusório alcanço e me escapa o equilíbrio. Desejo inspiração na rotina. O quanto a felicidade alheia é capaz de incomodar e o quanto esse incômodo revela o alcance da própria mediocridade?
Sun 22nd

Morfina

Published by: Adda Braga on Sunday 22nd February 2009 12:02pm

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008

MORFINA

Que adianta lutar contra algo que é inevitável?
Mais fácil fugir e deixar como está
Calar para não ter que escutar
Lamúrias
que não sejam as minhas próprias
Locar um filme
Uma realidade diferente
Distrair a mente
Me boicotar

Na veia...

Inteligência é burrice
Amor, desamor
Saúde é doença
Sanidade, loucura

Na veia...

E como fica feio, muito feio
E cômodo, plácido, desesperador e estático
Meu abismo, meu escuro, meu casulo, meu amor!

Ouço sons e vozes, tique-taque, sinos
Nervoso tique-nervoso
Me como, me espremo
Unha, cabelo encravado, Amor
Cravado
No peito!
Na veia! [que transborda amor]

Na veia! [Morfina, por favor!]
Sat 21st

A Música que Seria a Deles (Partes em html)

Published by: Adda Braga on Saturday 21st February 2009 11:02am

A música que seria a deles (Partes em html)

Debruçada nos cotovelos
sentada frente à mesa redonda
de ônix
Estava louca, muito louca
Mas só durou o começo

Veio a concentração
que trouxe a tela
de códigos, símbolos e cripto-linguagem
O coração não fala em html...

Ansiosa, tenta ouvir a música
que imagina que seria a deles,
caso tivessem se conhecido,
enquanto escreve estas palavras -
outros códigos, mais símbolos -;
o código da língua,
que também não fala em html

... A língua
quando desliza
desvenda a linguagem do corpo,
decifra se há amor...
Não tenho nada a confessar.
Você não me conhece.
Ainda...

Esqueceu-se do estômago oco,
atendeu ao telefone diversas vezes.
Nada importante
do outro lado da linha
Com um dos ouvidos,
automaticamente, respondia.
Com o outro
precisava escutar
seguidas e seguidas vezes,
a música que seria a deles,
caso um dia fossem se encontrar.
Para manter-se escrevendo
a inspiração brotada
das partes dele

Acendeu outro cigarro
E perdeu-se na visão
das imagens de si própria
num labirinto escuro, turvo, esfumaçado,
cheio de rostos desconhecidos
que não eram o dele
ou seriam?
Procurando...

Procurando partes dele.
Não se conheciam.
Procurando pelas partes
que podiam ser as dele.
Wed 11th

Pele

Published by: Adda Braga on Wednesday 11th February 2009 03:02am

 
Eu queria abraçar ela
beijar ela
em meio a fumaça que se ergue densa,
entre um sorvo e outro meu
Confesso sentado no chão
sem vergonha com verdade.

Despido de tudo,
do ego,
Digo com a boca que amarga
as palavras
E o olho roxo
que um dia
foram beijados por sua beleza

Despido,
o corpo lateja,
As palavras passeiam na pele
entre curvas que levam ao nome seu.
Queria abraçar ela
Queria beijar ela
Hoje não sou eu

Enlouqueço
Viro de ponta-cabeça
Antes que me achem
Hoje não sou mais ninguém
Sou mais eu.

Wed 11th

O Banho

Published by: Adda Braga on Wednesday 11th February 2009 02:02am
Ainda saboreava
O gosto acre rascante
Grudado à glote e às gengivas

Quando, após perder o chão sob os pés,
pisou os ladrilhos gélidos
Do banheiro

A imagem perpassou o espelho
Em cima da pia, o maço de cigarros,
O celular - em meio aos vidros de perfume -
E a lâmina de barbear;
Tudo empesteado com o cheiro do pai.
Coisas que tornariam-se reminiscências.

Dentro do box, avidamente, deslizou as portas de blindex,
Criando para si, uma clausura,
Um esconderijo, uma pequena fortaleza
De paredes vítreas e cristalinas.

Demorou-se para girar a torneira.
E levantou a cabeça, lançando o olhar
pro chuveiro
Não queria saber de surpresas.

Viu a gota primeira ameaçar
Destacando-se do montante de gotículas
Que disputavam entre si.
Certeira, cravou-lhe o olho.

Sob o chuveiro
Pensamentos indesejáveis invadiam
A mente incansável, autoflageladora.
Evocou os números
E pôs-se a contar
Não, porque doía-lhe a censura
(Onde estavam seus sentimentos?)
Mas, para espantar as imagens que se ofereciam -
O ato antes do banho -
Cuja alma exaurira

Imagens incômodas,
Emaranhadas
Tortuosas, não.
Nada sentia (onde estavam seus sentimentos?)
Desejava uma mente limpa
Como a água
Que saía do chuveiro
E descia pro ralo
Levando embora a sujeira.

Quanto tempo mais, permaneceria ali,
Indiferente
À vulnerabilidade da nuca, entregue ao jorro d'água?
Os sentimentos anestesiados opunham-se ao frenesi sensorial
Todos os poros dilatados
Os pêlos se arrepiavam
No roçar do sabonete.

Nada fazia sentido
O tempo corria numa velocidade diferente
Não se reconhecia
Prisioneira dum corpo de formas perfeitas
A água que o ralo sorvia
Era rósea, quase vermelha.

Veio a vertigem
E junto a memória
Concedera a boca
Para um último capricho
Engolindo o que as deusas
Do Olimpo
apelidaram de néctar dos deuses

Fora mais fácil
Que pensara
Enquanto o bebia
Durante o gozo cegante
Levantou o travesseiro que escondia
A paciente adaga

Dos dois objetos fálicos apoderara-se, então:
O quente, ainda pulsante, na boca
E o frígido, que encorajava direto na tráqueia,
Ágil, seco e degolante,
Golpe da mão.

Pôde gozar em vermelho-vivo viscoso
A espera dos anos
Consumara-se o momento da vingança
Pelos abusos a fio.
Era a primeira vez
Que gozava.

No banho
Não se reconhecia
Os pés cambaleantes sobre a água rósea,
Escorrida do corpo dela,
Não eram seus
Nem as imagens turvas
Que tentavam sobrepor-se aos números
Evocados por ela
Nem o tempo pertencia
À epoca nenhuma
Perdera a contagem

Inspirava fundo
Pois o ar lhe escapava
E a vertigem
Até os tímpanos invadia
Abafando-os completamente.
Um único pensamento
Brotou claro, coerente
E a fez sentir bem.
O mesmo que a perseguira na infância
Quando sufocava por entre as lágrimas
Espremidas
Pelo peso da barriga do pai:
"Sou uma menina muito má, má, má..."

(...)

Nada de mea culpa
Sentiu-se bem.
Mon 9th

Adrenalina

Published by: Adda Braga on Monday 9th February 2009 12:02pm
Gosto de lhe sentir por inteiro
quando já me invadiu por completo
sem antes se anunciar
talvez seu poder consista exatamente nisso
num chegar despercebido e não premeditado.
O prazer de ser sua morada, quando você está no auge
é que me faz querer dançar
e então eu danço, danço que me desfaço
e meus pedaços, todos já desfacelados, em mil outros eus,
são eles, agora, que estão no apogeu
em busca de outras moradas...
Relutar não adianta.
Thu 5th

Tamborim

Published by: Gustavo Moura Brasil on Thursday 5th February 2009 03:02am
Blog dedicado à temas como: poesia, escritores, cronicas, criticas, contos, Atualidades, Cultura e mais.
Rio de Janeiro, Brasil
Sun 12th

Fugindo Numa Tela de Van Gogh

Published by: Andre Soares on Sunday 12th October 2008 11:00pm

FUGINDO NUMA TELA DE VAN GOGH
(André L. Soares)
.
Cansado das vãs teorias,
busco a letargia
dos alienados felizes.
Não quero saber da política,
viro as costas ao feio
e à hipocrisia.
Entrego-me à incoerência;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!

Chega de tantas mentiras,
da esperança perdida
da pesada leitura.
Fico à margem dos dias,
da falsa engrenagem
das tristes notícias.
Cedo-me à ignorância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!

Farto das ideologias,
dos beijos de Judas,
das falas prolixas.
Renego as tramas noturnas,
as turvas matizes
e as falácias da vida.
Rendo-me à intolerância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
.
.
.

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