Não é Meu
Trafego entre dois pólos extremos. O estado ilusório alcanço e me escapa o equilíbrio. Desejo inspiração na rotina. O quanto a felicidade alheia é capaz de incomodar e o quanto esse incômodo revela o alcance da própria mediocridade?
Morfina
Quinta-feira, 13 de Novembro de 2008
MORFINA
Mais fácil fugir e deixar como está
Calar para não ter que escutar
Lamúrias
que não sejam as minhas próprias
Locar um filme
Uma realidade diferente
Distrair a mente
Me boicotar
Na veia...
Inteligência é burrice
Amor, desamor
Saúde é doença
Sanidade, loucura
Na veia...
E como fica feio, muito feio
E cômodo, plácido, desesperador e estático
Meu abismo, meu escuro, meu casulo, meu amor!
Ouço sons e vozes, tique-taque, sinos
Nervoso tique-nervoso
Me como, me espremo
Unha, cabelo encravado, Amor
Cravado
No peito!
Na veia! [que transborda amor]
Na veia! [Morfina, por favor!]
A Música que Seria a Deles (Partes em html)
A música que seria a deles (Partes em html)
sentada frente à mesa redonda
de ônix
Estava louca, muito louca
Mas só durou o começo
Veio a concentração
que trouxe a tela
de códigos, símbolos e cripto-linguagem
O coração não fala em html...
Ansiosa, tenta ouvir a música
que imagina que seria a deles,
caso tivessem se conhecido,
enquanto escreve estas palavras -
outros códigos, mais símbolos -;
o código da língua,
que também não fala em html
... A língua
quando desliza
desvenda a linguagem do corpo,
decifra se há amor...
Não tenho nada a confessar.
Você não me conhece.
Ainda...
Esqueceu-se do estômago oco,
atendeu ao telefone diversas vezes.
Nada importante
do outro lado da linha
Com um dos ouvidos,
automaticamente, respondia.
Com o outro
precisava escutar
seguidas e seguidas vezes,
a música que seria a deles,
caso um dia fossem se encontrar.
Para manter-se escrevendo
a inspiração brotada
das partes dele
Acendeu outro cigarro
E perdeu-se na visão
das imagens de si própria
num labirinto escuro, turvo, esfumaçado,
cheio de rostos desconhecidos
que não eram o dele
ou seriam?
Procurando...
Procurando partes dele.
Não se conheciam.
Procurando pelas partes
que podiam ser as dele.
Pele
Eu queria abraçar ela
beijar ela
em meio a fumaça que se ergue densa,
entre um sorvo e outro meu
Confesso sentado no chão
sem vergonha com verdade.
Despido de tudo,
do ego,
Digo com a boca que amarga
as palavras
E o olho roxo
que um dia
foram beijados por sua beleza
Despido,
o corpo lateja,
As palavras passeiam na pele
entre curvas que levam ao nome seu.
Queria abraçar ela
Queria beijar ela
Hoje não sou eu
Enlouqueço
Viro de ponta-cabeça
Antes que me achem
Hoje não sou mais ninguém
Sou mais eu.
O Banho
O gosto acre rascante
Grudado à glote e às gengivas
Quando, após perder o chão sob os pés,
pisou os ladrilhos gélidos
Do banheiro
A imagem perpassou o espelho
Em cima da pia, o maço de cigarros,
O celular - em meio aos vidros de perfume -
E a lâmina de barbear;
Tudo empesteado com o cheiro do pai.
Coisas que tornariam-se reminiscências.
Dentro do box, avidamente, deslizou as portas de blindex,
Criando para si, uma clausura,
Um esconderijo, uma pequena fortaleza
De paredes vítreas e cristalinas.
Demorou-se para girar a torneira.
E levantou a cabeça, lançando o olhar
pro chuveiro
Não queria saber de surpresas.
Viu a gota primeira ameaçar
Destacando-se do montante de gotículas
Que disputavam entre si.
Certeira, cravou-lhe o olho.
Sob o chuveiro
Pensamentos indesejáveis invadiam
A mente incansável, autoflageladora.
Evocou os números
E pôs-se a contar
Não, porque doía-lhe a censura
(Onde estavam seus sentimentos?)
Mas, para espantar as imagens que se ofereciam -
O ato antes do banho -
Cuja alma exaurira
Imagens incômodas,
Emaranhadas
Tortuosas, não.
Nada sentia (onde estavam seus sentimentos?)
Desejava uma mente limpa
Como a água
Que saía do chuveiro
E descia pro ralo
Levando embora a sujeira.
Quanto tempo mais, permaneceria ali,
Indiferente
À vulnerabilidade da nuca, entregue ao jorro d'água?
Os sentimentos anestesiados opunham-se ao frenesi sensorial
Todos os poros dilatados
Os pêlos se arrepiavam
No roçar do sabonete.
Nada fazia sentido
O tempo corria numa velocidade diferente
Não se reconhecia
Prisioneira dum corpo de formas perfeitas
A água que o ralo sorvia
Era rósea, quase vermelha.
Veio a vertigem
E junto a memória
Concedera a boca
Para um último capricho
Engolindo o que as deusas
Do Olimpo
apelidaram de néctar dos deuses
Fora mais fácil
Que pensara
Enquanto o bebia
Durante o gozo cegante
Levantou o travesseiro que escondia
A paciente adaga
Dos dois objetos fálicos apoderara-se, então:
O quente, ainda pulsante, na boca
E o frígido, que encorajava direto na tráqueia,
Ágil, seco e degolante,
Golpe da mão.
Pôde gozar em vermelho-vivo viscoso
A espera dos anos
Consumara-se o momento da vingança
Pelos abusos a fio.
Era a primeira vez
Que gozava.
No banho
Não se reconhecia
Os pés cambaleantes sobre a água rósea,
Escorrida do corpo dela,
Não eram seus
Nem as imagens turvas
Que tentavam sobrepor-se aos números
Evocados por ela
Nem o tempo pertencia
À epoca nenhuma
Perdera a contagem
Inspirava fundo
Pois o ar lhe escapava
E a vertigem
Até os tímpanos invadia
Abafando-os completamente.
Um único pensamento
Brotou claro, coerente
E a fez sentir bem.
O mesmo que a perseguira na infância
Quando sufocava por entre as lágrimas
Espremidas
Pelo peso da barriga do pai:
"Sou uma menina muito má, má, má..."
(...)
Nada de mea culpa
Sentiu-se bem.
Adrenalina
quando já me invadiu por completo
sem antes se anunciar
talvez seu poder consista exatamente nisso
num chegar despercebido e não premeditado.
O prazer de ser sua morada, quando você está no auge
é que me faz querer dançar
e então eu danço, danço que me desfaço
e meus pedaços, todos já desfacelados, em mil outros eus,
são eles, agora, que estão no apogeu
em busca de outras moradas...
Relutar não adianta.
Tamborim
Rio de Janeiro, Brasil
Fugindo Numa Tela de Van Gogh
FUGINDO NUMA TELA DE VAN GOGH
(André L. Soares)
.
Cansado das vãs teorias,
busco a letargia
dos alienados felizes.
Não quero saber da política,
viro as costas ao feio
e à hipocrisia.
Entrego-me à incoerência;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
Chega de tantas mentiras,
da esperança perdida
da pesada leitura.
Fico à margem dos dias,
da falsa engrenagem
das tristes notícias.
Cedo-me à ignorância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
Farto das ideologias,
dos beijos de Judas,
das falas prolixas.
Renego as tramas noturnas,
as turvas matizes
e as falácias da vida.
Rendo-me à intolerância;...
só vou ouvir os pássaros
e apreciar as orquídeas!
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